quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Por que se ama alguém?

Por que se ama alguém?
(Luís Fernando Veríssimo )

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem,
caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes
teriam uma fila de pretendentes batendo à porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a
razão.
O verdadeiro amor acontece por empatia, por
magnetismo...
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada,
veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só
referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o
outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos
piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se
espera. Então que ela tem um jeito de sorrir que o
deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que
LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar
com você. Isso tem nome. Você ama aquele cafajeste.
Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo
que encontra no armário.
Ele não tem a maior vocação para príncipe encantado, e
ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a
mão dele toca na sua nuca, você derrete feito
manteiga. Ele toca gaita de boca, adora animais e
escreve poemas...
Por que você ama este cara? Não pergunte para mim.
Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais.
Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman,
mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o
seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num
comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no
lugar (ou quase). Independente, emprego fixo, bom
saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem
loucura por computador e seu fettucine ao pesto é
imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de
ninguém....
Com um currículo desse, criatura, por que diabo está
sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um
sentimento, mas uma equação matemática: eu linda +
você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim. Amar não requer conhecimento
prévio nem consulta ao SPC.
Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos tem às
pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá
assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito do amor da
sua vida.

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